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Publicado na Boca Bilingüe - Revista de Cultura en Español y Portugués
Consejeria de Educacion de La Embajada de España en Lisboa

Lisboa, Octubre 1994, pags. 80-83

Paixão e Razão - Vivência e Significado

Vera Felicidade de Almeida Campos*

Tudo que significa, significa alguma coisa para alguém. Não há significado, sentido e valor independentes de malhas relacionais; linguagem, comunicação, cultura, civilização bem atestam isso. O único absoluto é o relativo.

O homem é ser no mundo, não podemos sequer falar do homem enquanto ele mesmo. Paradoxalmente toda vivência humana é sempre vivenciada como única; essa absolutização do relativo é o que permite a percepção, o saber quem sou eu, independente do outro que me estrutura e do mundo que me situa. Para a Gestalt Psychology a percepção sempre se dá enquanto processo de Figura/Fundo, embora o percebido seja sempre a Figura. Quando o Fundo é percebido esse já é Figura - graças à reversibilidade perceptiva.

Perceber é vivenciar e quando percebemos/vivenciamos, coagulamos, focamos; as relações estruturantes são absolutizadas, percebidas como únicas (1). O saber, o conhecer, o perceber assim configurado, ganha condição de fundamentante do ser: ser é perceber, ser é conhecer. Quando nos detemos nisso, distorcemos, entramos em um desvio ontológico, metafísico; não estamos falando do significado do ser, mas sim de suas vivências, daí que, saber que eu sou eu, nada significa; as vivências não significam, não situam, não explicam, desde que elas são o instantâneo absoluto não contextuado, não categorizado - é o não incluído, pois que é integrado (2).

As vivências nada significam enquanto não existirem códigos, referenciais, símbolos - relações constituintes que possibilitem significado. Esse é o drama humano, tanto quanto sua magia, sua vara de condão para estabelecer seus relacionamentos e efetivar sua possibilidade de estar no mundo.

A instrumentalização (usamos de propósito 'vara de condão') das vivências tornam-se significativas (rápido podemos pensar em todo o processo cultural, psicológico, filosófico, social, econômico, do homem, do ser no mundo. É uma magia transformadora, é o acesso ao outro, ao mundo, a mim mesma. É o ajuste, é o desajuste. É a sobrevivência, é a realização de ser o mais evoluido animal da escala zoológica, é a criação dos símbolos, da linguagem etc.).

Ao instrumentalizar vivências realizamos mas não esgotamos possibilidades. A magia se constitui em drama à medida que insinua o temer esgotar e o não poder esgotar. As possibilidades se transformam em limite. Os significados existem. Diante do limite o ser humano se unifica ou se divide, vive o uno ou o múltiplo. Falaremos disso enfocando paixão e razão.

Para mim, como psicoterapeuta, dizer que as vivências não têm significado é possível pela globalização do humano.

Paixão é a percepção do único. É a vivência absolutizada. Quebrar o relativo é absolutizar, é deixar sem categorização o percebido, o vivenciado e nesse sentido paixão é vivência. A vivência humana é sempre apaixonada, única, absolutizada. Contextuando-se é instrumentalizada, surgindo, então, como desejo, ódio, ambição, compaixão, alegria, prazer etc. - é toda gama emocional considerada caractarística do humano.

A apreensão linear do humano, como receptáculo de vivências, é responsável pelas ideias de mundo interno, mundo externo, subjetivo, objetivo.

A vivência apaixonada, a paixão quando instrumentalizada, quando transformada em varinha de condão, é a cogitação do que vai suprir minha necessidade - é o desejo. A obsessão com que os toxicômanos buscam a droga revela esse aspecto único, esse aspecto residual da vivência, da paixão.

O conceito de paixão como pathos, a ideia do estar submetido, passivo, do estar tomado por uma força estranha, é a ideia de paixão como destruidora da ordem, criadora da desordem. Essa ideia revela um posicionamento, uma visão parcializada do homem e do mundo: de um lado o racional, o lógico, o objetivo; do outro lado o irracional, o 'instintivo', o subjetivo. No meio, esta areia movediça, abismal que serve de campo para semeadura de ideias obscurecedoras do humano. A busca de clareza através do emaranhado da complexidade humana, ensejou as antinomias das visões excludentes.

A vivência sem significado, a vivência absolutizada é sempre paixão. É o estar tomado ou submetido. Quando essa vivência se relativiza, significando, quando adquire um sentido, temos a razão. É a força transformada em vetor, com direção e intensidade. A vivência direcionada é a motivação, é a ação categorizada, é a percepção percebida ou o que é comumente conhecido como conduta racional, é a razão.

A razão é a vestimenta da paixão. Nós, seres humanos, somos racionais por sermos apaixonados. É exatamente esse núcleo - vivência-paixão - que permite a psicologia comparada, a psicologia animal ou que, enfocado de outro modo, possibilitou a Lévi- Strauss a abolição da dicotomia entre pensamento mágico e pensamento científico.

A psicoterapia busca uma uniformização (uniforme é também vestimenta) das paixões vistas como obsessões e desejos coercitivos, avassaladores.

Nossa razão, nosso raciocínio, enfim, nossa categorização, nossas normas, são diagramas, arrumações das vivências, das paixões. Essa interferência ordenada é uma superposição causadora de desordens, mudança, relativização do absoluto vivencial.

A vivência de dor, de perda, de amor, os estados de consciência alterada, dos êxtases místicos e das vivências de droga, são incomunicáveis, sem significado enquanto vivência.

Vivenciar, apaixonar-se sem configurar, sem categorizar, sem perceber a paixão significativamente é o drama do humano, é o desespero, é a sobrevivência, é a angustia, a alegria, o prazer, é a sensação de finitude, de limite, é a realização das possibilidades do estar no mundo. A busca de realização, de resultados, é esvaziadora. Precisamos sempre instrumentalizar nossas possibilidades para satisfazer nossas necessidades, conseguindo assim uma pontualização absurda, uma adaptação, um posicionamento (3).

Os significados resultam de nossos posicionamentos. Traçamos o caminho de posição em posição e isso passa a ser a linha definidora do estar no mundo. A paixão vira desejo, obsessão, loucura, desequilíbrio da razão, e a razão passa a ser a explicação necessária, o símbolo redentor, o condificador, a grande metáfora. Cada vez temos mais canais e aquedutos, menos fontes e poços. Evitar exaustão de recursos obriga a toda uma significativa e bem construída rede de circulação para a vivência humana. É a massificação, a sobrevivência. Homens ordenados, racionais, sobrevivem, participam. Loucos, drogados, desorganizados sucumbem às paixões mal administradas.

Fica a questão: colocando três pontos, arbitrariamente configurados em um plano e ligando-os por duas retas, temos apenas três possibilidades (fig.1) de ligação. Por que se escolhe uma delas? Acaso? Imposição contextual? Unilateralização apriorística?

fig. 1

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(1) Dizer que a vivência é única, falar dessa absolutização do relativo é se deter no presente. Toda vivência é única e como tal sem significado. A vivência do presente contextuada no presente não significa, pois o presente é o estruturante relacional do estar no mundo. Perceber o presente como estruturante relacional sem significado, possibilita apreender e globalizar o humano, sua essência como possibilidade de relacionamento. Podemos dizer que o presente não significado, é um vazio, e é exatamente a vivência disso, do presente, que humaniza o homem, possibilitando a não pregnância de suas necessidades contingentes, biológicas e limitadas. Pregnância é a lei gestaltista da Boa Forma, da melhor direção.

(2) "incluído" pode ser significado como explicitado, posicionado, situado. "Integrado" é o vivenciado, é a percepção não significativa.

(3) No livro "Terra e Ouro São Iguais - Percepção em Psicoterapia Gestaltista", vera Felicidade de Almeida Campos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1993, conceituo e desenvolvo os temas da "instrumentalização", do "posicionamento" etc.

* Vera Felicidade de Almeida Campos é baiana, formada em psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Iniciou seu trabalho inovador de psicoterapia gestaltista em 1968, no rio de Janeiro, e, a partir de 1974, transferiu-se para Salvador. É autora de diversos livros: Psicoterapia gestaltista - conceituações (1973), Mudança e psicoterapia gestaltista (1978), Individualidade, questionamento e psicoterapia gestaltista (1983), Relacionamento trajetória do humano (1988), Terra e ouro são iguais (1993). "Se a autora vivesse no Primeiro Mundo, escrevia Paulo César Coutinho num artigo aparecido no jornal O Globo de 25-07-93 comentando este livro, sua obra já seria internacionalmente reconhecida como intervenção de gênio. Como vive na Bahia, totalmente integrada na teoria que criou, seus livros ainda são objeto de discussão de raros conhecedores".

 

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