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Vontade, Desejo e Psicoterapia Gestaltista

Publicado no Boletim do SBEM, ANO 7, outubro/dezembro 2006, pag. 42 a 44

 

Vera Felicidade de Almeida Campos*

 

Desejamos o que nos falta, satisfaz, realiza, completa e também aquilo que nos motiva e aplaca. O conceito de desejo está muito próximo do conceito de satisfação de necessidades. Desejo pode também ser sinônimo de motivação, vício, vazio e alienação.

O desejo é um ícone, uma circunstância, uma contingência, ou mesmo um contexto, um vetor sempre indicativo, orientador de vivência humana. Ele é também o referencial construtor de ideologias, de religiões e de considerações sobre o humano feitas pelas ciências sociais, as ciências que lidam com o humano, tais como: psicologia, antropologia, sociologia e economia.

O desejo foi tão contingenciado que perdeu sua estrutura relacional, virando um valor. Nada melhor que o colorido do desejo na monotonia da depressão, nada pior que a persistência do desejo no viciado. Desejo é prisão, já dizia Buda, ele cria repetições e apegos responsáveis por dor e sofrimento. Desejar é uma maneira de negar a realidade, dizia Freud, é a fantasia, um mecanismo de defesa do ego. Desejo é o propulsor de nossas trocas, de nossas relações e do consumo, dizia Marx, enfatizando também que é esse consumo o responsável pela alienação, pela manutenção do processo exploratório.

Séculos de considerações, abordagens variadas com inúmeras implicações estabeleceram fundamentalmente que o desejo pode ser bom ou ruim. Essa valoração esvaziou o desejo. Em realidade deu-lhe a devida dimensão: o desejo é um nada embora motive. É vazio mas funciona como uma alavanca. Essa condição instrumental é alheia ao humano, embora seja um instrumento por ele utilizado.

O uso aliena ou completa? Para responder a essa questão, precisamos lembrar dos conceitos de imanência e de transcendência.

O ser humano não é um ponto, não é um abstrato absoluto, isolado. Ele não existe como ser humano, ele existe como ser-humano-no-mundo. É uma unidade, uma totalidade, uma gestalt no sentido de Koehler, Koffka e Wertheimer. Estamos sempre em relação. Essas relações são estruturadas (imanentes) ou são funcionais (aderentes). Colocar imanência como estrutura e aderência como função, rompe a clássica oposição entre imanência e transcendência. Não consideramos aderência como sinônimo de transcendência. A transcendência é uma outra questão que veremos adiante.

A estrutura biológica é imanente ao ser humano.1 Vejamos alguns exemplos: logo após nascer, e no decorrer da vida, temos necessidade de comida. Essa necessidade pode ser regulada por desejos alimentares. A necessidade orgânica de alimento é estrutural, imanente ao organismo biológico humano. As cogitações em torno de qual alimento é necessário, qual é o desejado, são aderentes ao organismo, são funções contextuais, culturais e econômicas, por exemplo. O processo nutricional é exercido enquanto imanência estabelecedora de manutenção orgânica, ou é exercido como aderência, funcionamento determinado pelas demandas contingenciadas em inúmeros fatores. O desejo de comer, o desejo de não comer – bulimia e anorexia – exemplificam a questão. O indivíduo quando deseja ou não deseja comer já está se instalando em relações atributivas, aderentes. Isso é muito frequente não só em relação a comida. Outras situações podem ser comandadas pelo desejo: viver ou não viver, interromper a própria vida pode também ser ou não ser desejado. As aderências funcionais ultrapassam as imanências estruturais, destruindo-as. É uma anomalia. A base vira vértice, o ponto de sustentação torna-se mínimo, pequeno em relação ao que tem que ser mantido e suportado. São as patologias: anorexia, depressão etc. Nesses casos a estrutura vira função, o humano desaparece. É a instrumentalização. O ser transformou-se em instrumento de si mesmo. Marx e Hegel chamavam esse processo de alienação. Sartre e Heidegger viam nisso a inautenticidade.

Essa instrumentalização é frequente nas situações de vício (onde tudo é vendido - até o próprio corpo - para comprar a droga), ou nos bolsões de miséria urbana e rural onde os filhos são prostituídos para alimentar os próprios pais. Será que em um futuro próximo, literalmente, canibalizaremos para sobreviver? É muito possível. Metaforicamente isso já é feito no dia a dia da exploração econômica, psicológica e social que caracteriza os relacionamentos. No nível de sobrevivência a dor do outro não nos freia.

Os deslocamentos estruturais geradores de aderência, os esgarçamentos, as transformações de estrutura e função criam desequilíbrio. Corpos, sólidos, seres colocados em espaço limitado, buscam apoio para não cair e também se superpõem, se encaixam. Perdem fluidez, perdem movimentação, posicionam-se para manter o espaço. A questão do espaço define a liberdade. A liberdade é considerada em relação aos nossos limites. A imanência, a estrutura nos determina, nos limita mas não nos esgota, ainda sobra alguma coisa que é a possibilidade de criar transcendência ou de transcender.

O processo relacional da vivência do limite, a percepção do mesmo é a antítese responsável pela criação de transcendência. Essa antítese - percepção do limite - gera a categorização do mesmo.2 Desse modo surge a síntese, a trascendência. Criar transcendência não é transcender. A mediação é necessária, por isso a importância do outro, da antítese. O diferente de mim, o outro, é fundamental, é o relacionamento.

Transcendência não é aderência. A categorização do limite, a percepção da percepção é possibilitada pela estrutura imanente das contradições e esta categorização transcende seus estruturantes. Na aderência o limite não é categorizado e por isso não possibilita antítese, desde que não há categorização das contradições. O que surge é uma tese, um processo paralelo, aderente à estrutura, à imanência, aderente ao limite.

Essa sutil diferença entre aderência e transcendência é fundamental para visualizar o processo de humanização e de desumanização. Quanto menos antíteses, mais paralelas, mais teses. A quebra do movimento, da relação entre os seres, estrutura descontinuidade, pontos isolados, exigindo a construção de ligações, pontes ou aderências. São faltas que estruturam desejos.

As ideologias, as religiões cumprem esse papel – arrumam os desejos, desde o “proletários de todo o mundo, uní-vos!” até o “ganhe o reino dos céus”. A psicologia também aborda o desejo: “desejamos o que nos falta”, “desejo é o vazio”, “desejo é a motivação”, “somos seres desejantes, desejar é buscar complementação, harmonia”.

Unidade e pluralidade. Indivíduo e sociedade. O múltiplo não é a soma de um mais um mais um. A sociedade é uma totalidade e “o todo não é a soma das partes”. A sociedade não é a soma de indivíduos. A imanência humana não é social, embora seja relacional. A sociedade precisa de leis, de regras para atingir, para açambarcar e englobar os indivíduos. Ideologias, religiões, instituições são necessárias para isso.

As relações sociais aderentes ao humano criam desejos, demandas, alienam, portanto. O desejo é estruturado pelas aderências e essas resultam dos deslocamentos estruturais. O deslocamento estrutural é a transformação da estrutura em função. Isso ocorre no desequilíbrio, nos posicionamentos – quebra de relação por intervenção de outras estruturas. Não havendo deslocamento estrutural, as teses geram antítese, as estruturas – imanências – criam contradições responsáveis por síntese. A síntese (C) resulta do encontro de tese (A) e antítese (B):

 



A síntese é a nova realidade, em termos gráficos criou-se uma nova configuração do espaço. Chamamos a isso transcendência.

O deslocamento estrutural pode ser representado assim:



Não houve antítese, não houve síntese, não existe transcendência, existe aderência. A transcendência decorre de um encontro, uma contradição. A aderência decorre de um deslocamento, um prolongamento, um não encontro. A transcendência resulta da presença, do embate. A aderência resulta da falta. Desejo é essa falta. Vontade é essa presença.

Poderíamos chamar de desejo 1 e desejo 2 ou poderíamos dizer que vontade é o aderente enquanto desejo é o transcendente ou vice-versa. O importante é a situação que configura a transcendência e a aderência. Usei a palavra vontade para recuperar um vocábulo de feição elementarista, dando ao mesmo um contexto não elementarista. Na psicologia do sec. XIX, vontade, afetividade e atividade eram consideradas dimensões da personalidade, formavam o mundo interior do indivíduo.

Frequentemente o desejo tem uma conotação de busca, implicando no que está fora, no exterior. Não existe mundo interior nem exterior quando falamos de estruturas relacionais, usamos essas palavras sem estas conotações dualistas.

Vontade como transcendência é fundamental para resolver uma série de destruições causadas pelo desejo. Recuperar a vontade, transcender, aceitando a impotência, aceitando o limite, nos transforma. A vontade é sempre transcendência. O desejo é sempre aderência. A vontade resulta de contradição, de percepção da percepção, de categorização que gera síntese. Sem contradição não existe transcendência, não existe vontade, não existe determinação. No dia a dia das psicoterapias é muito frequente o desejo de mudar e a impossibilidade de fazê-lo. O desejo de abandonar a droga, abandonar o jogo, diminuir a comida que engorda é uma constante. Só haverá mudança quando surgir a vontade, quando surgir transcendência. Para isso são necessárias contradições, antíteses. Todos os processos educacionais, processos terapêuticos e relacionamentos - estruturadores de vontade - são liberadores.

Desejo é o que nos falta, vontade não é o que nos sobra, mas é o que nos liberta se enfrentarmos, se vivenciarmos o dia a dia das contradições. Pela vontade, pela superação de contradições, pela transcendência, os limites da existência são superados, transformados ou integrados.

Em psicoterapia procuramos recontextualizar os neutralizadores, os amortecedores das contradições por meio de questionamentos, para que surja a vontade, a liberdade de mudar, a aceitação de si e dos outros.

O continuado exercício de realização de desejos ou de frustração de desejos, desumaniza, cria seres padronizados, satisfeitos ou insatisfeitos que buscam realizar perfis e estabelecer prioridades para a realização de seus desejos. Fogem do medo, caem na depressão, evitam frustrações e cada dia se tornam mais abúlicos, sem vontade, precisando de palpites, regras e orientações. Os manuais de auto-ajuda contam com esse mercado, os políticos e religiosos também. Esses seres sem vontade, sem transcendência, limitados por tudo que os rodeia, são os títeres do sistema.

O ser livre é aquele que exerce suas vontades, não sucumbe aos seus desejos.

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1 ver meu livro “A Questão do Ser, do Si Mesmo e do Eu”, p.19

2 ver meu livro “Desespero e Maldade – estudos perceptivos relação figura-fundo”, p. 22

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* Vera Felicidade de Almeida Campos é psicoterapeuta gestaltista, autora de diversos livros, seu último livro é "A Realidade da Ilusão, A Ilusão da Realidade" pela Editora Relume Dumará, Rio de Janeiro 2004

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