1983

 

Individualidade, Questionamento e Psicoterapia Gestaltista

Vera Felicidade de Almeida Campos, Editora Alhambra, Rio de Janeiro, 1983
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Livro

Extrato

Capítulo III - Neurose - Esvaziamento do Presente

 

Por que vivenciar a realidade, o outro, eu mesma enquanto representação (distorção, símbolo) é mais comum, mais frequente?

Koffka, na página 17 de seu livro The Growth of the Mind - an introduction to child psychology, editado por Littlefield, Adams & Co., ao comentar os métodos objetivos de experimentação dos behavioristas, diz: "Se alguém tem apenas a capacidade de dar tais respostas como os outros possam observar, ninguém seria capaz de observar nada". Ponto crucial, confronto entre objetividade-subjetividade, dois lados da mesma moeda, que se antagonizam com o conceito de vivência (Erlebnis, de Husserl). O comportamento humano é uma expressão da vivência relacional do ser humano consigo mesmo, e/ou com o outro, e/ou com o mundo e/ou com seu contexto, estruturado em um espaço cultural, social, geográfico e em um tempo: passado, presente ou futuro. Esse embaralhamento, sincronização ou desincronização, organiza-se por uma trajetória dada pelo outro, que é o semelhante ou o dessemelhante (ser humano, animal, planta, conjuntura ou objeto).

Coloquemos tudo entre parênteses e vejamos a trajetória, a relação. Aí chegando temos uma Figura que é estruturada por um Fundo: a motivação. Todo comportamento humano expressa uma motivação. Motivo é o que dirige, desperta e mantém o comportamento. Os motivos são extrínsecos ou intrínsecos às relações vivenciadas, podem ser aqui-agora, ali-antes, além-depois. Entender e apreender as motivações humanas são os objetivos do psicoterapeuta gestaltista, a fim de psicoterapicamente dimensioná-las, estruturando individualidades.

Presentificadas, as motivações são as possibilidades orientadoras e demarcadoras de nosso comportamento/relacionamento. Estruturadas enquanto passado, as motivações se transformam nos códigos, padrões de comportamento, os a priori, que regulam nosso comportamento, são prévios congeladores, estagnizadores do estar-com-o-outro-agora-aqui-no-mundo. Desencadeados pelas aspirações, metas, os motivos passam a ser os faróis balizadores de nosso comportamento, funcionando como imãs polarizantes e esvaziadores do presente. Passamos, corremos pelo dia a dia, pelo cotidiano a fim de chegar ao lugar postulado como nirvânico.

Demos um contexto, um fundo que torna mais inteligível a frase de Koffka: "Se alguém tem apenas a capacidade de dar tais respostas como os outros possam observar, ninguém seria capaz de observar nada".

Nós podemos observar, descrever as forças, os constituintes da relação, mas nunca a relação que os configura, a relação que se estabelece, que se vivencia. Lembrando Husserl, diríamos que a vivência é a Wesenchau do humano. A essência do ser humano é relacional. A relação é a dinâmica, a trajetória motivacional, individualizada ou desindividualizada, humanizada ou desumanizada (coisificada = reificada). E, por que é mais comum vivenciar a realidade, o outro, eu mesma enquanto representação, distorção, símbolo? O ser humano existe em um tempo e em um espaço. A temporalidade é a dimensão processual e dinâmica do humano, tanto quanto a espacialidade o é. O corpo, o organismo, é o móvel situado em um plano (mundo, sociedade, cultura, família) que por acão de forças contextuais nele se desloca, se movimenta. Acontece que esse corpo, esse organismo, se autoregula, discrimina sua trajetória mantendo-a ou modificando-a graças às relações discriminatórias que estabelece com seus contextuadores, seu plano, seu espaço. Tem uma autonomia que é dada pela vivência de seus limites ou de suas dependências, faltando-lhe a referida quando ignora seus limites, realizando apenas os movimentos a ele possibilitados. Perceber o limite, discriminar os referenciais que o constituem, destaca-o de seu mundo, individualizando-o, estruturando seus caminhos de ação, suas motivações de vida. Ao caminhar e refletir sobre isso, ao perceber sua trajetória, ele integra a continuidade, a temporalidade, já não é mais um simples alvo de forças, resultado da ação das mesmas. O movimento de estar se deslocando em um plano, espaço, pode graficamente ser representado:

 





A percepção de seus limites, é graficamente configurada:




Ao integrar seus limites, ele se temporaliza:




A interseção das relações espaciais com as temporais estrutura planos que passam a ser situantes do ser-no-mundo podendo assim ser balizadores do mesmo. Novos deslocamentos, novos interesses, novas interseções, novos planos, nessa dinâmica as situações começam a se repetir, ganhando pregnância a representação das ações, dos comportamentos. Perceber isso, com isso se relacionar, procurar direções possibilitadoras ou convergências mantenedoras, é uma vivência constante. Essa continuidade de vivências espacializa o tempo por meio da memória e do pensamento. A percepção é extrapolada e/ou esclerosada. O processo vira meio, passando a ser ponte, laço de união entre eu e o outro, eu e o mundo. Perceber é conhecer e relacionar-se com o existente, é qualificar, colorir o fenômeno, o que está se dando: em mim, no outro, no mundo. Categorizar o percebido, dele me apossar, por meio dele me autodeterminar e regular, estrutura caminhos, direções, residuos perceptivos, espacialização do presente, por meio da memória. Passamos a saber, extrapolação do conhecer pois que é um referencial situado de vivências, relacionamentos e configurações: sabemos, experimentamos, temos um contexto, um fundo que vai nos possibilitar/impossibilitar as percepções. Já temos marcas (engramas) responsáveis por direções e caminhos. A novidade, a complexidade, a closura, a pregnância do mundo, do outro, do presente, fica esmagada ou involucrada, embalada por esse Fundo. A memória preside, induz e orienta nossa vivência do presente. O pensamento, que é a criatividade, o prolongamento perceptivo, vira, via de regra, um prolongamento mneumônico, pois a percepção existe em função a memória

Momento sério e grave, caótico na existência humana: o presente passa a ser um vazio, lacuna que serve de contexto às vivências humanas. Sempre estamos vivendo em um presente, muito embora nem sempre estejamos vivenciando o presente.

Este vazio temporal responsável pela pregnância do passado (medos, acertos, experiências, verdades, mentiras) ou pela pregnância de futuro (metas, desejos, ambições etc.) nos transforma em móvel submetido à ação da inércia; perdemos nossa autonomia, somos o que os outros nos permitem ser, por meio de seus sistemas, suas regras, suas leis. Passamos a vivenciar no presente a representação de nós próprios (nossos desejos, ilusões, anseios, medos, expectativas), a representação do mundo, da sociedade, da cultura: seus slogans e regras de como fazer. Cabe-nos apenas distorcer a realidade, ser neurótico.

Distorcemos a realidade, passamos a vivenciá-la, ao outro e a nós próprios como representação, como símbolo. É a aderência, a contingência, o valor. O atributo transforma-se no substantivo, e assim o substantivo, o sujeito, vira atributo, apêndice de um sistema valorativo, no qual o homem vale pelo que aparenta, pelo que tem, pelo que representa enquanto produtividade, cultura, sabedoria, dinheiro. Essa alienação possibilita a homogeneização necessária para transformá-lo em porta-voz e baluarte de sistemas despersonalizadores. É a neurose. O comportamento passa a ser motivado pela sabedoria adquirida (memória): manter o que conseguiu, evitar o que obstaculiza e é motivado também pelos anseios de atingir aquilo que vai realizar, justificar, salvar a própria vida (pensamento): filhos, patrimônio, pátria, ciência, religião, ideologia, conseguir um prêmio nobel etc.

Essa alienação, coisificação resultante de não vivenciar o presente a não ser como vazio, contexto das representações do real, do outro e de si, exilam a motivação, a alegria, o amor, do cotidiano do ser humano, pois se todo comportamento é motivado e se a situação é motivante à medida que é nova, complexa, pregnante e impõe um fechamento, uma closura - criando uma sensação de tarefa interrompida - coisa a realizar, vemos que no vazio existe homogeneização, não existem sinalizações, falta complexidade, impasses e consequentemente nada é novo, tudo está completo e acabado.

Acontece que todo comportamento é motivado, daí que utilizamos o vazio do presente como ponte entre o futuro e o passado. Preconceitos, hábitos (passado) e metas, aspirações (futuro) transformam a repetição, a homogeneização em novidade; o acerto, o erro viram complexidade a ser mantida ou evitada; a sabedoria, a experiência da existência tornam-se a complementação e realização de tarefas, o que muitas vezes angustia, deixando como pregnante a motivação em salvar a própria pele, continuar sendo o que eu tenho conseguido ser. Nesse processo o ser humano perde o que o caracteriza e define como humano: o questionamento resultante do diálogo que ele estabelece com o seu presente. Perdendo esse questionamento, ele se coisifica, segue a corrente, desindividualizando-se em função de seu contexto.

Os sistemas sociais, políticos e econômicos, na busca de manutenção de seus postulados e aderências valorativas, sempre buscam neutralizar as antíteses por eles geradas, daí que seus pontos chaves, seus baluartes - a educação, o trabalho, a família, a moral, a ciência, a filosofia, a religião - procurem sedar, aplacar, evitar questionamentos à sua própria estruturação; entretanto, como o todo não é a soma das partes, sempre surge alguma dimensão presentificada, representada por indivíduos que iniciam os questionamentos, as antíteses. Essa dialética, esse atrito, fagulhas de presente, energiza o humano para vislumbrar saídas, embora minimizadas pelo esmagamento fragmentador causado pelo atrito, pela opressão. Surge nova escola, nova proposta de trabalho, nova moral, questionamentos às verdades filosóficas, morais e religiosas milenares. Surge a marginalização, os anti-sistemas, é antítese, mas não é mudança, pois a preocupação ainda não é por individualização, mas por melhores condições de vida, por mais espaço, e aí a massificação, a despersonalização permanece, pois o homem, não tendo integrado o outro, seu principal limite, não tendo integrado seus limites biológicos, permanece afastado de sua temporalidade enquanto presente, espacializando-se, dedicando-se a vencer os obstáculos de seu-estar-no-mundo, em vez de transcendê-los, transformando-os.

Uma escola, uma família, uma sociedade que baseassem as suas estruturas no relacionamento questionante e presentificado daquilo que é transmitido, levariam a uma integração da temporalidade. A presentificação abriria novos caminhos nos emaranhados dos sistemas. Haveria diferenciação na homogeneização do presente esvaziado. O mesmo ocorreria enquanto relacionamento humano. Estar-com-o-outro-aqui-e-agora seria revitalizador, era a maneira de ressuscitar a coisa agarrada a outra-coisa-que-me-segurou-antes-e-vai-me-apoiar-me-aceitando-sempre.

Outro aspecto muito importante é o da comunicação enquanto linguagem. A palavra é um instrumento forjado pela cultura. Assim formalizada a linguagem informa mais do que expressa. Representa mais do que apresenta, sendo por gênese alienante. É um símbolo que unifica, quando já decorre de divisão e somatório de vivências. Nomear alguma coisa ou situação é expressar um significado relacional apreendido, tanto quanto cunhar uma fôrma para infinitamente reproduzi-lo, descaracterizando-o de seus constituintes básicos; em filosofia, como visão do mundo, isso é muito enfático ao estudarmos conceituações feitas em outra cultura, outra língua. O significado coloquial, individualizado da palavra é uma busca de individualizações, daí os jargões, a gíria, os usos semanticamente deslocativos da palavra, os neologismos constantes na linguagem das crianças, no início da aquisição da mesma, as palavras especiais e individualizadas dos amantes quando, entre si, designam o cotidiano, os outros, a si mesmos. Com a espacialização do tempo essa busca também se coisifica.

O convencional, o modal, o quantitativo sublevam a essência, a qualidade, a autenticidade, o homem-no-mundo é substituido pelo mundo-do-homem. Essa particularização, parcialização, também desindividualiza. "Cada cabeça é um mundo", é sábio, experiente, mas não é globalizador do fenômeno humano, basta um relacionamento entre duas cabeças, dois mundos, para ser destruído esse axioma basilar de nossa cultura e, por incrível que pareça, de nossa dita ciência psicológica.

Temos agora contexto (Fundo) para amplamente responder à pergunta (Figura): por que vivenciar a realidade, o outro, eu mesma, enquanto representação (distorção, símbolo) é o mais comum?

Podemos entender que a vida do ser humano é feita de ilusões (símbolo, linguagem, dinheiro, valores etc.), a própria sensação de imortalidade, o querer ter filhos para se continuar, para ter alguém que cuide de si quando envelhecer, quando adoecer e não o querer ter filhos para colocar um ser no mundo, para recriar, em sua dimensão individualizada, o universo. A não vivência dos limites existenciais é a ilusão, é a neurose. A vivência humana, como representação da realidade, devido à não presentificação, deixa-nos claro que a ilusão é a matéria-prima do humano. Basta pensar nas eternas relações desencontradas entre homem e mulher, amigos, pais e filhos etc. nas religiões, nas ideologias, no morrer pela pátria, no trabalho de recuperação existencial, na ajuda psicológica.

Quando o ser humano está presentificado, unitariamente estruturado, ele adquire consistência, ele não tem ilusões, ele tem crenças que são decorrentes de descobertas, encontros, confiança, participação no mundo, com o outro e consigo mesmo. O amor pode ser uma ilusão, quando meta ou necessidade. E ele é uma crença, uma vivência significativa quando decorrente do encontro entre duas individualidades, daí serem completamente estranhos e alheios ao amor os cúmes, traições, omissões etc. típicos dos referenciais de ilusão e de neurose. [pags. 38 a 45]




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